O teatro de sombras

O amor faz fome, e as estrelas não brilham de coração partido. Serei para ti um palácio de espírito mais do que um museu do saber, serei para ti a dor fugidia no aguilhão moralista residente no teu peito.
Desemboca em mim a tua sede selvagem de apetite do intelecto, crava na tua incerteza a minha doença de alma, o amor contagioso que salta de palavra em palavra e não nos deixa a sós. Certamente nunca terei o plenário visual de uma simples mosca, aquela enormidade de pequenos cristais recrutadores do real que se move, o real que se sente, o real que nos toca. Numa fracção de milésimos de segundo imaginei ter essa perspectiva, assustadora. Vi que o homem nunca deixará de ser "animaliscamente" escravo das suas paixões. É certo que somos nós que nos envolvemos no mundo real, mas mais certo que isto é o facto dele nos engolir a nós primeiro. A paixão é reconvertida em emoção que nos leva ao movimento, à sensação de sair da zona de conforto na qual somos imperadores e agora nos vemos aterrados nos pântanos de humor de outro ser.
Tenho o instinto cego do apanágio em mim, a génese da paixão reconvertida do tudo que vai acontecer para o tudo que poderia ser. É ela que se exprime na carne e atormenta o espírito das recordações. É ela que move o desejo que faz parte do corpo, que aspira a moderar o calor interior com o ar frio da respiração de uma estrela de coração partido.
Vivo em mim a cosmogonia ingénua do nosso universo paralelo, no original se ela existir, essa teoria não tem mais efeito. Explodiste-me para fora da tua órbita.
Não conheço a multiplicidade da minha verdadeira identidade, nem a sua unidade biológica, mas a sensação de prazer contamina-me o sistema, o ADN da mesma forma que a ti, quando uma grande quantidade de ar se mistura com o sangue, que se espalha por todo o corpo de harmonia com a natureza. Entende isto, ao que escrevo como ar, nós sentimos como perfume da paixão. Mas quando ele é pobre, desnaturado e ao mesmo tempo espesso, não se mistura mais e dá origem a um sentimento de tristeza.
Poderia confessar-te que o meu hipotálamo estaria embebido em "luliberina" em vez de pecar com um "amo-te"? Sim, mas nunca o fiz. O amor é mais simples do que parece, e nós só o complicamos com a nossa biblioteca "genómica" controversa. O amor faz fome.
A palavra desejo é tão bonita como vaga, é uma sopa conceptual num encontro de dois egoísmos. O teu sorriso pelo meu, a tua felicidade pela minha e no fim? Existe a literacia do amor próprio, um instinto transformado num comportamento de cegueira.
O excesso de desejo paralisa a alegria na sua extensão apaixonada do prazer, "laetitia est hominis transitio a minore ad majorem perfectionem". (Alegria é a transição do homem de uma menor perfeição para uma maior).
Hoje sou a companhia da virtude, ela acontece quando se sofre a dor e é seguida de prazer, o vício é o prazer seguido da dor. As paixões tem uma linguagem particular que são caracteres delas mesmas e a essas chamam-se figuras. Eu sou uma experiência de figura que coloca à prova essa linguagem. Sou o amor próprio da minha escrita, aquilo que é próprio do amor é fazer que coabitem, com as suas cores mais violentas, os impulsos da alma e as emoções da carne.

Eu existo porque estou emocionado e porque tu o sabes.

André M.

Sem comentários:

Enviar um comentário